
Um amigo, muito mais inteligente que eu, foi ao cinema comigo. E, na saída do filme, lanchamos. Comemos bastante e, desesperada, perguntei:
- O que você faria se pudesse voltar no tempo?
- Teria permanecido em Paris.
Adorei.
O que eu faria caso pudesse voltar no tempo? Nossa, acho que mudaria tudo em minha vida. Teria escolhido outra escola para estudar quando voltei para o Recife, aos quatro anos de idade, assim pouparia a minha memória de uma adolescência traumática e, quem sabe, a minha história atual fosse outra. Além disso, mudaria a minha postura diante do mundo. Hoje, ao cultivar alguma sorte de egoísmo, teria me tornado uma pessoa bem-sucedida. Jamais teria dado ouvido às lamúrias dos outros. Os homens, como se sabe, não reservam qualquer espaço para as mulheres. O nosso destino é sempre o mesmo: ser algo para eles. Isso não é certo. Ai, eu faria algo para mudar esse quadro.
De qualquer forma, aos 22 anos, sou uma velha. Não adianta mudar muita coisa no meu passado. Acho mesmo que deveria fazer uma terapia cognitivo-comportamental. Sei lá, mudar o presente. Tem gente que acredita nessas coisas. Talvez, o problema não esteja em minha infância. Talvez…
É, ler As Palavras me deixou um pouco confusa. Assim como Anne-Marie, nunca foi, para Sartre, uma mãe; os meus pais nunca foram realmente os meus pais. Desde os primeiros momentos da minha vida me reparei enfrentando os mesmos problemas que eles. Em verdade, criamos uma relação de amizade incapaz de ser corrompida por qualquer lance de autoridade. Entretanto, quando, na minha adolescência, os meus pais se separaram, o projeto da família comunista foi por água abaixo. Passei por maus bocados sem encontrar os amigos por trás das máscaras autoritárias em que, sem sombra de dúvidas, tentavam encobrir os seus próprios erros. Foi uma época de muitas incoerências. Mas, como bem disse a psicóloga, ‘vamos trabalhar o seu presente’.
No meu presente eu sou o meu único problema. Hoje mesmo pensei em ‘como me tornei estúpida’ e, sem chances de viver, continuo sem a mínima vontade de morrer. Aliás, adianta morrer? Adormecer para fazer cessar a dor que sentimos no coração e todas as outras dores que costumamos herdar? Jamais. Talvez, o príncipe da Dinamarca não fosse tão louco quanto se costuma pensar. Mas, eu dizia: sou estúpida. Tudo que aprendi não serve para nada. A humanidade está certa. Eu sou o problema e, a Rede Globo é a solução. Nem Shakespeare ou Hegel será capaz de me transformar em alguma coisa. Devo, para ser sincera, apostar no Xuxa life-style. Sei lá, assim serei a rainha dos baixinhos e, poderei dizer, no Fantástico que gostaria de ter cor de chocolate. Serei amada por todos, até mesmo pelos meus professores. A psicóloga por acaso qualificou como um problema a minha necessidade de ser especial?
Não sei. Ela não me deixava olhar as suas anotações e, provavelmente, após 3 anos sem ver a sua cara, já deve ter tocado fogo nos meus arquivos. Merda! Pouca coisa será publicada sobre o meu desespero quando estiver morta. Outro dia tive um pensamento esquisito. Em um futuro qualquer, um documentário da National Geografic dirá: ‘pouco se sabe sobre J.A. A sua identidade é um mistério. A sua idade se perde na história do ocidente e, estudos do centro de antropologia da Universidade de Cambridge revelam: ela foi, de uma forma ou de outra, mãe de uma raça indestrutível. O seu descendente, descoberto após escovar os dentes com um cotonete, para um exame de DNA, é um homem que muito pensa e pouco faz. Alguém que, por ser fraco, prossegue no tempo.’
Existe algo que poderia mudar no meu passado? Algo que possa fazer pelo meu presente? Algo que possa beneficiar o meu futuro?
Ai, não sei. Quem sabe, Paris?