‘…two lives may be saved.’

Julho 31, 2007


‘Our love goes under the knife…’

Acordei. Fato normal. Acordei e desejei não estar naquele quarto, deitada na mesma cama de sempre e envolvida pelo edredom cor-de-rosa que tenho desde os quatro anos de idade. Acordei, já disse. Fato normal e até mesmo comum para todos que estão vivos. Aliás, não tão comum como deveria ser. As pessoas em coma não acordam. Mas, o que dizer daquelas que sofrem de amnésia? Não sei. Não, não sei mesmo. Mas, de qualquer forma acredito que devam acordar. Desmemoriadas, claro. Vazias de significado, também. Acordam como qualquer outra pessoa, porém alheias a própria identidade.

Deve ser um sentimento mágico estar dissociado de si mesmo. Quantas vezes desejei perder minha essência na realidade que passa veloz pelas movimentadas avenidas do centro! Ora, já perdi as contas das ocasiões em que brinquei de me deixar esquecer apenas para tornar a me perceber: renovada.

Entretanto existem momentos em que não ouso ambicionar recobrar a minha essência. São momentos através dos quais quero deixar de ser para simplesmente me permitir invadir pelo mundo. E mesmo que por alguns minutos todo o mundo estevesse resumido a uma mera representação nada mais importaria. Não sei. Não sei mesmo. De qualquer forma ficaria feliz em saber que por alguns instantes o mundo poderia estar figurado em você. Assim, quem sabe, abandonaria o cigarro, a bebida e os maus hábitos. Consentiria passar todas as minhas noites em claro visto que residiria líquida em seus próprios sonhos e, por fim, ai! Acordaria quente dentro do seu corpo, num beijo, pelo primeiro raio de sol. Porque também seria o raio de sol e inundaria cada canto do seu quarto, vivo, agora, para você, em mim, na minha ausência e na constância de cada objeto ao seu lado.

Bom dia, amor. Bom dia. Acordei. Fato normal. Faz frio. Talvez acenda um cigarro, não sei. Realmente não sei. Mas enquanto não inventarem os bisturis d’alma permitirei ser consumida por pensamentos de você.

‘…two lives may be saved.’


Serge Gainsbourg

Julho 17, 2007

Serge Gainsbourg and Jane Birkin – Ballade De Melody Nelson


“Ça c’est l’histoire
De Melody Nelson
Qu’à part moi-même personne
N’a jamais pris dans ses bras
Ça vous étonne
Mais c’est comme ça

Elle avait de l’amour
Pauvre Melody Nelson
Ouais, elle en avait des tonnes
Mais ses jours étaient comptés
Quatorze automnes
Et quinze étés

Un petit animal
Que cette Melody Nelson
Une adorable garçonne
Et si délicieuse enfant
Que je n’ai con-
Nue qu’un instant.

Oh ! Ma Melody
Ma Melody Nelson
Aimable petite conne
Tu étais la condition
Sine qua non
De ma raison”

Entrevista com Jane Birkin


Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Julho 16, 2007

“Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que alí acontece.

Ao escrever hoje uma carta, dei conta de que há só três semanas que aqui estou. Três semanas em qualquer outra parte, no campo por exemplo, podiam parecer um dia; aqui são anos. Também já não quero escrever mais cartas. Para que hei-de eu dizer a alguém que estou mudando? Se estou mudando, já não sou aquele que fui, e, se sou diferente do que fui até agora, é claro que não tenho conhecidos. E a estranhos, a pessoas que me não conhecem, é evidente que não posso escrever.

Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo.

Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há mutas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poumadas; não mudam de cara. nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem das outras? – Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também os seus cães saírem com elas. E porque não? Uma cara é apenas uma cara.

Outras pessoas póem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após a outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar as caras; a última gastou-se ao cabo de outo dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como um papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam.

Mas aquela mulher, aquela mulher, aquela mulher!: tinha-se recolhido totalmente em si mesma, inclinada para diante, apoiada nas mãoes. Foi na esquina da Rue Notre-Dame-des-Champs. Logo que a vi, comecei a andar devagar. Quando os pobres se põem a pensar, não devemos incomodálos. Talvez consigam por fim lembrar-se.” Rainer Maria Rilke