Abandono, Alice. Abandono. Foi o que senti quando pela primeira vez lancei meus olhos sobre os seus. Desde então nem mesmo os dias de sol e o casal de pombos que teima fazer ninho na janela do meu quarto me traz qualquer alegria. Perdi completamente minha paz de espírito. Agora compreendo bem quando dizem que é necessário nos deixarmos alienar para reencontrarmos a nós mesmos através do outro. Mas o meu outro, Alice: o meu outro era você. Olhei dentro dos seus olhos e para além deles nada encontrei. Você lá na minha memória, sentada naquele banco de praça, vestida nas mesmas vestes pobres, pernas inchadas pelo que pensei ter sido uma longa caminhada. Senti pena dos seus pés metidos naquelas velhas sandálias. Lembro ter insistido à minha razão: quem é ela?
Quem sou eu? Naquele momento o vento soprou e puxou seus cabelos. Num movimento breve suas mãos jogaram com habilidade sem igual os cachos para posição da qual jamais deveriam ter saído. Entende, Alice. Você era estátua que jamais deveria ter ganho vida sobre o meu pedestal. Mas naquele momento. Naquele momento! Foi como se o vento nos pregasse uma peça e implorasse ao pé do seu ouvido: torna-te um pouco à esquerda. Existe n’outro banco da praça alguém estranho.
Teria sido eu realmente estranho ao olhar que me lançou? Aliás, jamais lançou sobre mim qualquer olhar. Porém naquele instante. Tudo não passou de uma brincadeira do destino. Culpa do vento, já disse. Você nem sequer reparou em mim. Era eu que me fazia penetrar furtivamente a sua vista. Fui no fundo dos seus olhos e nada encontrei ou pude dotar de sentido. Quem é ela? Perguntei novamente ao meu pensamento atordoado. Quem sou eu? Não recebi qualquer resposta.
E quando você levantou-se graciosamente do local onde estava sentada: foi roubo. Foi roubo, Alice! O que diabos você fez com a minha alma? O que andei fazendo comigo mesmo? Eu que nunca tive nada. Ai, foi-se com você o resto de mim! Talvez nunca tenha estado realmente comigo. Quem saberá dizer?
O pipoqueiro abismado pelo meu jeito de lhe ver passar me entregou um saco disse:
- É Alice.
Entreguei-lhe uma moeda como se nada houvesse escutado. Segui o seu vulto como um louco e, por fim, nos encontramos. Na parada de ônibus. Respirei fundo. Perguntei:
- Moça, aceita pipoca?
Você não sorriu. Dirigiu os olhos para o saco de pipocas e depois para mim. Eu, sempre, sem a menor importância. Renegado, pobre, carente de mim mesmo. Era você, não? A senhora de todo o meu destino.
- Obrigada.
Sabe, Alice. São dez da noite. Escrevo de frente para o reógio pois ao menos tenho a ilusão de ao ver o tempo passar saber que estou vivo. Obrigada? Levou consigo o que nem antes de você ousei ter: liberdade. Agora, querida, me resta recolher o pouco que restou do que tenho por ausência. Adeus.
Alice recolheu as sobras de comida sobre a mesa de jantar. Era uma noite de verão que ardia como a luz incandescente da cozinha. Fora do apartamento, o céu de lua nova era de muitas estrelas e as ruas deixavam-se perder na escuridão: todos os caminhos estavam selados.
Abril 27, 2008 às 12:24 am
muito bom!