“Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que alí acontece.
Ao escrever hoje uma carta, dei conta de que há só três semanas que aqui estou. Três semanas em qualquer outra parte, no campo por exemplo, podiam parecer um dia; aqui são anos. Também já não quero escrever mais cartas. Para que hei-de eu dizer a alguém que estou mudando? Se estou mudando, já não sou aquele que fui, e, se sou diferente do que fui até agora, é claro que não tenho conhecidos. E a estranhos, a pessoas que me não conhecem, é evidente que não posso escrever.
Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo.
Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há mutas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poumadas; não mudam de cara. nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem das outras? – Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também os seus cães saírem com elas. E porque não? Uma cara é apenas uma cara.
Outras pessoas póem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após a outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar as caras; a última gastou-se ao cabo de outo dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como um papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam.
Mas aquela mulher, aquela mulher, aquela mulher!: tinha-se recolhido totalmente em si mesma, inclinada para diante, apoiada nas mãoes. Foi na esquina da Rue Notre-Dame-des-Champs. Logo que a vi, comecei a andar devagar. Quando os pobres se põem a pensar, não devemos incomodálos. Talvez consigam por fim lembrar-se.” Rainer Maria Rilke