Primeira Parte

Agosto 3, 2007

Alice recolheu as sobras de comida sobre a mesa de jantar. Era uma noite de verão que ardia como a luz incandescente da cozinha, mas Alice sequer brilhava. Tinha os olhos fixos nas migalhas de pão enquanto um vento forte entrava pela janela fazia balançar as cortinas. Fora do apartamento, o céu de lua nova era de muitas estrelas e as ruas deixavam-se perder na escuridão: todos os caminhos estavam selados.


‘…two lives may be saved.’

Julho 31, 2007


‘Our love goes under the knife…’

Acordei. Fato normal. Acordei e desejei não estar naquele quarto, deitada na mesma cama de sempre e envolvida pelo edredom cor-de-rosa que tenho desde os quatro anos de idade. Acordei, já disse. Fato normal e até mesmo comum para todos que estão vivos. Aliás, não tão comum como deveria ser. As pessoas em coma não acordam. Mas, o que dizer daquelas que sofrem de amnésia? Não sei. Não, não sei mesmo. Mas, de qualquer forma acredito que devam acordar. Desmemoriadas, claro. Vazias de significado, também. Acordam como qualquer outra pessoa, porém alheias a própria identidade.

Deve ser um sentimento mágico estar dissociado de si mesmo. Quantas vezes desejei perder minha essência na realidade que passa veloz pelas movimentadas avenidas do centro! Ora, já perdi as contas das ocasiões em que brinquei de me deixar esquecer apenas para tornar a me perceber: renovada.

Entretanto existem momentos em que não ouso ambicionar recobrar a minha essência. São momentos através dos quais quero deixar de ser para simplesmente me permitir invadir pelo mundo. E mesmo que por alguns minutos todo o mundo estevesse resumido a uma mera representação nada mais importaria. Não sei. Não sei mesmo. De qualquer forma ficaria feliz em saber que por alguns instantes o mundo poderia estar figurado em você. Assim, quem sabe, abandonaria o cigarro, a bebida e os maus hábitos. Consentiria passar todas as minhas noites em claro visto que residiria líquida em seus próprios sonhos e, por fim, ai! Acordaria quente dentro do seu corpo, num beijo, pelo primeiro raio de sol. Porque também seria o raio de sol e inundaria cada canto do seu quarto, vivo, agora, para você, em mim, na minha ausência e na constância de cada objeto ao seu lado.

Bom dia, amor. Bom dia. Acordei. Fato normal. Faz frio. Talvez acenda um cigarro, não sei. Realmente não sei. Mas enquanto não inventarem os bisturis d’alma permitirei ser consumida por pensamentos de você.

‘…two lives may be saved.’


Serge Gainsbourg

Julho 17, 2007

Serge Gainsbourg and Jane Birkin – Ballade De Melody Nelson


“Ça c’est l’histoire
De Melody Nelson
Qu’à part moi-même personne
N’a jamais pris dans ses bras
Ça vous étonne
Mais c’est comme ça

Elle avait de l’amour
Pauvre Melody Nelson
Ouais, elle en avait des tonnes
Mais ses jours étaient comptés
Quatorze automnes
Et quinze étés

Un petit animal
Que cette Melody Nelson
Une adorable garçonne
Et si délicieuse enfant
Que je n’ai con-
Nue qu’un instant.

Oh ! Ma Melody
Ma Melody Nelson
Aimable petite conne
Tu étais la condition
Sine qua non
De ma raison”

Entrevista com Jane Birkin


Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Julho 16, 2007

“Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que alí acontece.

Ao escrever hoje uma carta, dei conta de que há só três semanas que aqui estou. Três semanas em qualquer outra parte, no campo por exemplo, podiam parecer um dia; aqui são anos. Também já não quero escrever mais cartas. Para que hei-de eu dizer a alguém que estou mudando? Se estou mudando, já não sou aquele que fui, e, se sou diferente do que fui até agora, é claro que não tenho conhecidos. E a estranhos, a pessoas que me não conhecem, é evidente que não posso escrever.

Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo.

Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há mutas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poumadas; não mudam de cara. nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem das outras? – Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também os seus cães saírem com elas. E porque não? Uma cara é apenas uma cara.

Outras pessoas póem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após a outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar as caras; a última gastou-se ao cabo de outo dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como um papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam.

Mas aquela mulher, aquela mulher, aquela mulher!: tinha-se recolhido totalmente em si mesma, inclinada para diante, apoiada nas mãoes. Foi na esquina da Rue Notre-Dame-des-Champs. Logo que a vi, comecei a andar devagar. Quando os pobres se põem a pensar, não devemos incomodálos. Talvez consigam por fim lembrar-se.” Rainer Maria Rilke


08:04

Junho 14, 2007

Estou de férias.


Hamlet, act III.

Maio 22, 2007

“To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?
To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d.
To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin?
who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.–Soft you now!

The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember’d.”
W. Shakespeare


Segunda-feira.

Maio 15, 2007

Segunda-feira, dia de sol. Você acorda, tem a cabeça cheia de idéias. Decide imprimir parte da sua agenda e colocar em prática algumas coisas que pensava em não mais fazer. A primeira dessas coisas, a mais simples de todas, trata-se de enviar o resumo de um artigo para os avaliadores de um evento. Compenetrada, Word aberto diante dos seus olhos, você conta as palavras do resumo, escreve um e-mail para o seu orientador, pede sugestões, recebe boas críticas, respira fundo e finalmente envia o material para as feras.

Resumo enviado, coração mais leve, 1/3 de sorriso nos lábios, você parte para mais uma tarefa: pensar na possibilidade de produzir um novo artigo para outro evento. E, neste momento, sua cabeça começa a doer. Na verdade você está com a cabeça doendo desde cedo. O dia de sol, a segunda-feira e todo o seu verniz de otimismo se desfez minutos antes do despertador tocar. Então, muito chateada, você se pergunta: o que devo fazer com a minha cabeça?

Provavelmente jogar fora. Faz tempo minha mãe diz que não estou muito bem. Passo parte das noites lendo e, quando acordo, permaneco imobilizada na cama olhando para o teto. Ela diz que preciso parar. Sei lá, descansar. Fazer um esporte ou até mesmo levar o cachorro para passear. Mas, a minha história é muito simples: longe do computador e distante dos livros não sou alguém. É, eu sei, qualquer dia desses apareço na faculdade montada num cabo de vassoura, un rocin muy hermoso, para me lançar contra os moinhos de vento do meu departamento. Realmente, preciso de um tempo: porque pessoas normais não bebem cabernet-sauvignon com Kant ou levam Hegel para passear.

Vou atirar minha cabeça fora no Lixão da Muribeca. É segunda-feira, dia de sol, as pessoas enfrentam engarrafamentos para chegar ao trabalho e, enquanto isso, preparo meus spreadsheets do Google para organizar meus próximos afazeres semanais: horários de estudo, metas para realizar no trabalho, leitura de textos, confecção de documentos, etc.

Ai, adoro! Sei lá, no fundo, para que descansar?!

Ehn, certo, Gone, não vou esquecer de colocar na minha agenda um momento para fecharmos a nossa Gestalt. HAHAHA!

p.s: ai, merda.


Daily Quote.

Abril 27, 2007

anniehoofd.jpg
“My problems all started with my early education. I went to a school for mentally disturbed teachers.”
Woody Allen


Loading…

Abril 23, 2007

Porque amanhã começa o simpósio ( FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO:200 ANOS DE UMA EPOPÉIA) e hoje estou absolutamente stressada. Então, como mal consigo escrever, deixo vocês com algumas palavras do Pe. Vaz que, talvez, ajude qualquer boa alma a entender que o evento que estamos organizando não se trata de um encontro de paranormais (…ehn…, alguém pode rir? Tentei fazer uma piada).

“A Fenomenologia apresenta, pois, três significações fundamentais. Uma significação propriamente filosófica definida pela pergunta que situa Hegel em face de Kant: o que significa para a consciência experimentar-se a si mesma através de sucessivas formas de saber que são assumidas e julgadas por essa forma suprema que chamamos de ciência ou filosofia? uma significação cultural definida pela interrogação que habita e impele o “espírito do tempo” na hora da reflexão hegeliana: o que significa, para o homem ocidental moderno, experimentar o seu destino como tarefa de decifração do enigma de uma história que se empenha na luta pelo Sentido através da aparente sem-razão dos comflitos, ou que vê florecer “a rosa da razão na cruz do presente?” Finalmente, uma significação histórica, definida pela questão que assinala a originalidade do propósito hegeliano: o que significa para a consciência a necessidade de percorrer a história da formação do seu mundo de cultura como caminho que designa os momentos do seu próprio formar-ser para a Ciência? (…)” Henrique Cláudio de Lima Vaz

Até sexta-feira, minha gente.

*

‘Nous ne sommes pas au monde’: outro tópico.

im_hautedef_cartierbresson1.jpg

Gente, tô bege! Como diria Suzano: Algo me aconteceu. Não estamos mais no mundo. Essa frase de Rimbaud me pegou de surpresa. Passei a noite do domingo tentando conciliar os meus pensamentos sobre eventos, coisas e lugares, mas estou, realmente, um caco. Meu sentimento de estrangeirice chegou ao ápice. Não tem Beatles que dê jeito. She’s not a girl who misses much.

Oh, for the love of G-d, woman, stop it! Phellipe, na sexta-feira, enquanto eu devorava alguns gummi-bears, soltou a pérola: você precisa parar com isso. Vá beber!

Ai, Juliana, aprende a sorrir. Solta uma piada. Sei lá, se joga. Seu olhar não pertence a uma NIKON D200. Pára de regular entrada de luz, velocidade de lente, foco. Pára! Deixa a complexidade dos momentos para as fotos de Bresson e Cole Porter para as trilhas sonoras de Woody Allen. Bem, pensa, Recife não é Manhattan. Aqui, até mesmo a sua bolsa Gucci foi falsificada.

Porra, Juliana, tem calma. Sei que conviver consigo mesma deve ser uma barra. Ninguém pode ser capaz de gostar do próprio reflexo no espelho. Vou te dizer uma coisa: não adianta ficar bonita. Enfeitar a embalagem é sempre uma grande merda. Já disse, pára!

Vai dormir, caramba! Se entrar no seu quarto e escutar tocando Françoise Hardy meto-lhe a mão na cara. A vida não é uma sessão de cinema. Pára! Você não pode comprar meia-entrada para viver seus próprios momentos e tampouco o que você faz é filme de arte numa sala da Fundação. Olha, presta atenção: o seu dia-a-dia está mais para gravação em super-8, pas de chance!

Vê se volta ao mundo. Veste o relógio no pulso. Se vida não existe aprende a escutar o tic-tac.

“When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder…
Will we really remember how it feels to be this alive?

And I know we have to go
I realize we only get to stay so long
Always have to go back to real lives
Where we belong

When we think back to all this and I’m sure we will
We and you, here and now
Will we forget the way it really is
Why it feels like this and how?

And we always have to go i realize
We always have to say goodbye
Always have to go back to real lives

But real lives are the reason why
We want to live another life
We want to feel another time
another time…

Yeah another time

To feel another time…

When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder…
Will we really remember how it feels to be this alive?

And i know we have to go
I realize we always have to turn away
Always have to go back to real lives

But real lives are why we stay
For another dream
Another day
For another world
Another way
For another way…

One last time before it’s over
One last time before the end
One last time before it’s time to go again…” The Cure – Out of this world.


Tédio

Abril 22, 2007

Domigo. Você, em casa, sozinha, no computador, precisa tomar coragem para estudar. Mas, é aquilo: domingo. O cachorro entra pela porta do terraço, passa pela copa, entra na sala de TV e acaba encontrando você na sala de jantar, esticada de frente para o monitor checando loucamente todos os seus e-mail.

- Argos, vamos assistir Sex and The City?